Padre Jocimar Dantas, marchand e colecionador.

Quem foi padre uma vez nunca mais vai deixar de ser, mesmo que tenha abandonado a batina. É assim com o Padre Jocimar Dantas de Araújo, de 42 anos, que largou o sacerdócio para ser prefeito em Jardim do Seridó, sua cidade natal, entre os anos de 2009 e 2016. Mas essa entrevista não é tanto sobre ser padre ou ser prefeito. É sobre ser marchand, curador e colecionador de arte, paixão que Jocimar cultiva desde criança, quando, admirado com o trabalho dos artesãos jardinenses da feira livre da cidade, adquiriu sua primeira obra.

Essa paixão pela arte atravessou o sacerdócio e vida política para virar ofício a poucos anos, quando Jocimar assumiu a Galeria de Arte Antiga e Contemporânea do Centro de Turismo de Natal – a mais antiga em funcionamento de Natal. É lá que está a maior coleção de arte popular do estado, com artistas de diferentes partes do RN, entre nomes consagrados e da nova geração.

A missão de conduzir a Galeria foi dada com confiança e liberdade pelo fundador do espaço, o professor Antônio Marques – um quase padre que deixou de lado o sacerdócio para se dedicar ao estudo da Filosofia, Sociologia e Arte. E foi na Galeria, diante do colorido diverso da arte potiguar, que Jocimar concedeu essa entrevista à TRIBUNA DO NORTE, narrando um pouco de sua trajetória e da sua vivência com o mundo artístico.

Jardim do Seridó

Jardim do Seridó surge entre os rios da Cobra e Seridó. É uma cidade pacata, uma das mais antigas da região, vem da época do Império, tem um patrimônio histórico importante, o centro da cidade é lindo, com casarões e sobrados do século XIX, além da Igreja do Sagrado Coração de Jesus e a Igreja da Nossa Senhora da Conceição (padroeira da cidade). Mas acho que nossa maior riqueza é o povo. O seridoense é um ser de muita fé, fibra, altivez, convive com a estiagem de modo positivo. Nasci em Jardim do Seridó e vivi os melhores dias da minha vida lá.

O despertar para a arte

Criança de família tradicional, muito cedo fui despertado para o lado tanto da religião quanto da arte. Em casa tinha muitos objetos artísticos devocionais. E na feira livre eu me encontrava com os artistas. Tinha ceramista, bordadeira, escultor. Eu ficava fascinado. Foi esse ambiente que me despertou para o belo. E foi criança que também adquiri minhas primeiras peças de arte, boizinhos de cerâmica na Feira Livre.

Cidade de artesões

Jardim do Seridó é uma região de muitos artesãos, terra de fabricação de cerâmica, de bordadeiras, escultores, como o mestre Júlio Cassiano, um dos nossos grandes artistas. Quando eu era criança cheguei a conhecê-lo em seu atelier, trabalhava com madeira umburana. Na zona rural também conheci artesão de peças utilitárias. Em Jardim do Seridó também temos a festa dos Negros do Rosário, uma festa sagrada e profana, que vem desde a escravidão, tem música e dança. Outro marco da nossa cultura é a Banda Euterpe Jardinense, a segunda mais antiga do Estado, completou 160 anos.

Arte e religião

Fiz o seminário no Diocesano de Caicó. Depois pude sistematizar melhor meu gosto pela arte quando frequentei a academia, na faculdade de Filosofia, que cursei em Cajazeiras, na Paraíba. Depois fui estudar Teologia na PUC-RJ, e retornando ao Seridó, fiz História na UFRN. O que era só colecionismo foi ganhando mais conteúdo a medida que eu estudava sobre o homem, o mundo, Deus. A arte nos espiritualiza muito. O belo ajuda no encontro com o sobrenatural e com a nossa própria essência. Todo mundo precisa de arte no seu dia, até para evoluir mais espiritualmente. Precisamos de arte também para dizer não à violência que está ai fora. Arte e cultura.

De padre para prefeito

Me ordenei padre em São José do Seridó. No meu tempo lá cheguei a realizar uma exposição de arte sacra na igreja. Depois me licenciei da função para exercer o cargo de prefeito na minha cidade, Jardim do Seridó. Tinha 30 anos na época. Exerci o cargo por dois mandatos seguidos. Na minha gestão, procurei dar incentivo aos artesãos, com cursos e valorizando a arte que já existia na cidade. Coloquei também o artesanato dentro dentro do roteiro turístico da cidade. O turismo no Seridó é algo forte, muito por causa da nossa cultura.

O convite de um mestre

O professor Antônio Marques estava se aposentando, procurava um sucessor, e me convidou para assumir essa missão de continuar com a galeria, a galeria de arte mais antiga em funcionamento na cidade, fundada em 1987. Antes de assumir a Galeria aprendi um pouco de restauração, de curadoria, da logística de uma galeria. Negociar arte é mexer com o imaginário das pessoas, então é preciso estar preparado. Estou como diretor da galeria aqui há quase cinco anos. Temos obras de artistas de todo o estado, nomes consagrados, a geração nova. Faço trabalho de pesquisa constante. O trabalho de marchand é esse, procurar novos artistas e entender seu trabalho para poder apresentar da melhor forma possível ao público.

Visitantes de todos os perfis

Muita gente vem em busca de algo para decorar a casa. Roberta Sá esteve aqui recentemente. A atriz Titina Medeiros também. Gente do meio social e político, frequentam muito. Recebemos com regularidade também escolas. As crianças ficam encantadas com nosso artesanato, nosso acervo de peças históricas, cristais, porcelanas européias, além de curiosidades como as moedas antigas, os livros raros, fora de catálogo, de autores potiguares e sobre o Rio Grande do Norte.

Os santos mais procurados

No setor de antiguidades temos santos do século XVIII e XIX, verdadeiras raridades. Temos uma Nossa Senhora do Rosário do século XVIII, chegou aqui com uma família espanhola que veio morar em Natal. Mas quando essa família voltou pra Espanha, pagaram o caseiro com várias coisas de valor, dentre as quais essa peça. Explicaram para o caseiro sobre a importância da obra. E com o tempo o caseiro veio aqui vender. Adquirimos há três anos. É a peça de arte sacra mais antiga que temos aqui.  Mas das peças sacras, a mais procurada é São Francisco de Assis, protetor da Natureza e dos Animais. Mas também vendemos muito Sant’ana, padroeira do Seridó, Nossa Senhora da Conceição, de Jardim do Seridó, e Nossa Senhora da Apresentação, de Natal.

Estado de artesões

O Rio Grande do Norte é uma terra de grandes artesãos. Luzia Dantas, de Currais Novos, é um dos nossos nomes mais fortes da arte. Ambrósio Córdula, de Acari, é outro. Seu neo-barroco é conhecido no Brasil todo e até no exterior, inclusive no Vaticano. Temos também outros nomes, como mestre Gregório e Gean Rocha, de Santa Cruz, JJ, de Itaipu, sucessor de Xico Santeiro, tem também Mestre Ivan do Maxixe, de Currais Novos. Geicifran de Azevedo, nome novo de Jardim do Seridó. Edvaldo Santiago, da segunda geração de ceramista de Ceará-Mirim. Na cerâmica ainda tem o povoado de Santo Antônio, em São Gonçalo do Amarante, com sua tradição de peças decorativas e utilitárias. Além de nomes da capital, como Mestre Sombra, da Zona Norte, que faz esculturas de madeira de tipos africanos. A arte é muito dinâmica, se você for atrás, verá que estão sempre surgindo novos artistas.